Postado em 24 de Fevereiro de 2026 ás 16:37

Me Conte Sua História: Trajetória acadêmica e de pesquisas de Elaine Pimentel
Ao longo de quase três décadas, a professora universitária Elaine Pimentel transformou a pesquisa acadêmica em instrumento de mudança concreta no sistema prisional de Alagoas.
Com estudos voltados especialmente para o abandono de mulheres presas e para o acompanhamento do cárcere à liberdade, ela também teve participação ativa no fechamento do manicômio judiciário do estado.
Alagoana, Elaine escolheu o Direito e encontrou na pesquisa seu principal campo de atuação. “Eu me encontrei na pesquisa, na produção de conhecimento, nos projetos de extensão, na possibilidade de dialogar com a comunidade, levar algo para a comunidade e também receber muito da comunidade”, afirmou em entrevista à TV Asa Branca Alagoas. (Assista acima)
Elaine Pimentel, diretora da Faculdade de Direito da Universidade Federal de Alagoas (Ufal)
Tv Asa Branca Alagoas/Reprodução
Ela é graduada em Direito pela Universidade Federal de Alagoas (Ufal), mestre em Sociologia também pela Ufal e doutora em Sociologia pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Atualmente, iniciou pós-doutoramento com vínculo em universidades europeias.
A trajetória acadêmica a levou a ocupar um posto inédito: foi a primeira mulher a dirigir a Faculdade de Direito de Alagoas, instituição com 95 anos de história, criada três décadas antes da própria Ufal. Elaine assumiu a direção em 2008 e está no segundo mandato.
“Eu espero que isso seja uma porta aberta para que outras mulheres sejam e que isso inspire as estudantes a ocupar esses espaços”, destacou.
Apesar dos cargos administrativos, ela afirma que é na sala de aula que se realiza. “Cada nova turma renova em mim a esperança e o desejo de fazer algo diferente.”
O olhar para as mulheres no cárcere
Elaine Pimentel, diretora da Faculdade de Direito da Universidade Federal de Alagoas (Ufal).
Tv Asa Branca Alagoas/Reprodução
Com sensibilidade voltada às desigualdades de gênero, Elaine assumiu uma pauta marcada por estigmas: a situação das mulheres no sistema prisional. Inspirada pela filósofa Simone de Beauvoir, ela explica que o feminismo é um processo de consciência. “Não se nasce feminista, torna-se.”
Desde a graduação, realiza pesquisas em prisões. Ao longo dos anos, identificou padrões recorrentes no encarceramento feminino, como a separação dos filhos, abandono por parte dos companheiros e histórico de violências.
“O contrário não acontece. As mulheres permanecem fiéis na fila da visita para ver o companheiro preso”, afirmou.
Segundo a pesquisadora, ao trabalhar com a metodologia de história de vida, é possível perceber trajetórias marcadas por violência na infância, abusos, opressões, maternidade precoce e exclusão social. “Há todo um histórico de violência que favorece o encarceramento.”
Ela também critica a formação histórica do sistema de justiça. “Todo o sistema de justiça foi preparado por homens e para homens. Os livros mais antigos tratavam a mulher no crime como aberração: a mulher delinquente, a mulher louca, a mulher prostituta.”
Diante dessa lacuna, passou a produzir conhecimento sobre o tema. São dois livros individuais e cerca de 20 obras coletivas organizadas ou com artigos de sua autoria.
Movimento antimanicomial
Manicômio judiciário de Alagoas
Tv Asa Branca Alagoas/Reprodução
Além do sistema prisional, Elaine também se dedica ao movimento antimanicomial. Seus estudos contribuíram para o fechamento do manicômio judiciário de Alagoas, efetivado em 18 de agosto de 2025, em cumprimento à Resolução 487 do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), que determina a aplicação da política antimanicomial no Poder Judiciário.
De acordo com ela, Alagoas se tornou o segundo estado brasileiro a encerrar as atividades manicomiais no sistema prisional.
“Não é só fechar e entregar para a comunidade. Essas pessoas estavam ali há 20, 30 anos. Como é voltar para as famílias? Como é voltar a viver numa casa?”, questionou.
Ela acompanhou o processo de desinstitucionalização dos pacientes, resgatando um projeto de pesquisa que já existia havia sete anos. Para a professora, o momento teve significado especial.
“Passei quase 30 anos acompanhando inaugurações de presídios, o que na criminologia chamamos de expansão carcerária, expansão punitiva. Foi a primeira vez que eu fui para um fechamento. Isso, para mim, é muito interessante.”