Postado em 08 de Janeiro de 2026 ás 03:00

Cantos de trabalho ainda resistem em comunidades brasileiras (parte 1)
O Globo Rural completou 46 anos nesta terça-feira (6). Para comemorar a data, o programa do último domingo (4) mostrou os cantos de trabalho. Uma tradição que ainda resiste em comunidades rurais do Brasil, quase sempre onde o trabalho manual ainda é parte da rotina.
O ato de cantar durante o trabalho estimula e, ao mesmo tempo, suaviza as atividades, muitas vezes repetitivas, cansativas, enfadonhas. Também se transforma em celebração.
Na Bahia, os produtores geram música enquanto batem as vagens de feijão, para os grãos se soltarem.
Já em Alagoas, crianças se conectam com a ancestralidade do povo Kariri-xocó a partir dos cantos.
Em Minas Gerais, são feitos mutirões para produzir farinha e algodão embalados por cantos.
Assobio
Na comunidade do Faxinal do Emboque, no interior do Paraná, o agricultor Nelson Przyvitowski mantém um costume ancestral: o assobio.
Para ele, o som é uma companhia que coloca as tarefas no compasso, seja para arar a terra ou tratar dos animais.
Ao lado de sua esposa, Marli, Nelson preserva o folclore polonês dentro de um barracão centenário construído a machado.
Enquanto operam máquinas manuais de madeira, como moinhos e assopradores de grãos, o casal entoa canções que narram a vida dos seus antepassados.
Mesmo imersos na tradição, a modernidade se faz presente: Marli utiliza a internet para obter receitas e fórmulas de produtos de limpeza que produz em casa e vender.
Canto das bordadeiras
Em Minas Gerais, na região de Arinos, o grupo Central Veredas une bordadeiras e fiandeiras, que relatam que o canto coletivo ajuda a dissipar a ansiedade e a esquecer problemas domésticos.
"Elas bordam dia e noite para a família sustentar", diz um dos versos entoados pelo grupo.
A associação é composta por 160 mulheres e já mapeou mais de 250 canções de trabalho na região de Arinos.
Além do valor cultural, a união gera impacto econômico: a associação fatura cerca de R$ 350 mil por ano, beneficiando fiandeiras, tingideiras, tecelãs e bordadeiras em uma rede de cooperação.
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Mutirões para cantar
Cantos de trabalho ganham força em mutirões (parte 2)
Em Urucuia, Minas Gerais, acontecem os mutirões nas casas de farinha comunitárias. Para processar até 500 kg de mandioca em um único dia, vizinhos e parentes se unem em cantigas que fazem o serviço render mais.
Essas reuniões são descritas como uma herança de família, onde versos antigos e quadrinhas são trocados entre os trabalhadores enquanto descascam e torram a farinha.
De roça para os palcos
Aos 80 anos, a trabalhadora rural Dona Rosália, de Arapiraca (AL), lançou um CD com o grupo "Cabelo de Maria", que é dedicado a pesquisa da música regional.
Mestre no coco de roda, ela traz em sua voz a memória das "tapagens de taipa", ritos onde o barro era batido ao ritmo dos pés e do canto para erguer paredes.
Em Arapiraca, as destaladeiras de fumo, como são chamadas as mulheres que retiram manualmente o talo das folhas do cultivo depois da colheita, também utilizam a música durante a tarefa, que hoje sustenta a agricultura familiar da região.
O canto, que antes ocorria em grandes salões coletivos, agora resiste de forma doméstica.
Pesquisadores se debruçam sobre os cantos de trabalho (parte 3)
Sincronia na canto e no trabalho
Em Serra Preta, na Bahia, o mutirão da bata de feijão exige precisão matemática. Na atividade, os trabalhadores batem e peneiram o feijão.
O canto feito pelos trabalhadores se chama responsorial, ou seja, tem uma pergunta e uma resposta.
Os agricultores precisam saber se estão na função de resposta ou pergunta, para realizar o trabalho corretamente. Ele coordena o ritmo dos bastões que batem na vagem; um erro na cadência pode resultar em uma batida acidental na perna do colega.
"O canto vem para humanizar o trabalho", explica a pesquisadora Renata Mattar.
Na aldeia Kariri-Xocó, os indígenas praticam o "rojão de roça", onde o canto e a tarefa são vistos como uma fusão inseparável entre corpo e espírito.
Agricultores da Bahia cantam durante bata de feijão (parte 4)
Origem da poesia
Para o professor Iván García, da Universidade Nacional Autônoma do México, os cantos de trabalho estão na "madrugada das formas poéticas" e representam a própria origem da poesia. Por isso, é possível dizer que em todo o mundo existem cantos de trabalho.
O ritmo serve para unir a força coletiva, como ocorre na famosa canção mexicana "La Bamba", inspirada na sincronia dos marinheiros. Dessa forma, elas tornam o trabalho mais tolerável e alinhado entre os trabalhadores.
Na Venezuela, a prática ganha espaço nos cantos de ordenha. As músicas são utilizadas para acalmar o rebanho e estabelecer um diálogo entre o ordenhador e as vacas, que muitas vezes têm nomes e personalidades reconhecidas pelo trabalhador.
Algo similar acontece no Brasil: o "aboio". Ele é utilizado pelos criadores de boi para guiar o gado. Geralmente, as músicas modulam as vogais. Existe ainda a toada de aboio, poesias que utilizam destes cantos.
O aboio transmite para o animais paz e energia, explica a pesquisadora Mattar.
Na Bahia, a tradição se renova com o agricultor Alvino Dias, autor de "chulas", como são chamadas as cantigas de trabalho na região. Elas também abordam temas contemporâneos, como o impacto do WhatsApp e do celular na rotina do campo.
Caixas de mercadorias foram transformadas em instrumento musical (parte 5)
O sopro ancestral nos cantos de trabalho (parte 6)
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