Fé, ancestralidade e resistência: a trajetória de Mãe Neide Oyá D’Oxum em Alagoas

Postado em 03 de Março de 2026 ás 18:20

Mãe Neide relata trajetória de ancestralidade afro-brasileira, fé e liberdade
Entre o cheiro do dendê, o som dos atabaques e a força que atravessa gerações, a história de Alagoas também passa pelo nome de Mãe Neide Oyá D’Oxum. Ialorixá, mulher negra, liderança comunitária e reconhecida como Patrimônio Vivo do Estado, ela transformou a fé em resistência e resistência em cuidado coletivo.
“Ser mulher já é um grande desafio. Comumente falam ‘sexo frágil’, e eu digo que é o sexo forte. A gente já nasce com a força e a graça divina de gerar”, afirmou à TV Asa Branca Alagoas. (Assista acima)
Mãe biológica e sacerdotisa de matriz africana, ela resume a própria trajetória como um exercício permanente de enfrentamento. “Criar filhos na periferia, ser de matriz africana, ser sacerdotisa e ser Patrimônio Vivo do Estado de Alagoas, numa terra marcada pela intolerância religiosa e pelo ‘Quebra’, é um desafio enorme. Eu vim com essa força feminina para vencer.”
Fé e espiritualidade
Mãe Neide Oyá D’Oxum
Tv Asa Branca Alagoas/Reprodução
De acordo com ela, a espiritualidade chegou cedo, como quem chama pelo nome. Na infância, a vivência religiosa já transitava entre universos distintos: frequentava a igreja, mas também participava, de forma discreta, dos cultos da jurema, rezando tanto a missa quanto para entidades como Seu Zé Pilintra.
Segundo Mãe Neide, essa junção de experiências a fortaleceu e contribuiu para a construção de um caminho pautado na laicidade, sem preconceitos ou racismo, e baseado no respeito à escolha de cada pessoa.
Mas o percurso não foi feito apenas de celebrações. A intolerância religiosa deixou marcas profundas. Uma das dores mais difíceis foi descobrir que a própria filha, aos 12 anos, escondia o sofrimento para proteger a mãe.
“Ela dizia que eu não merecia aquilo, que nossa religião não era aquilo que falavam. Era medo, angústia. Eu cheguei a tomar remédio controlado na época”, relembrou.
Se a fé sustenta, a cozinha conecta. É ali que a ancestralidade ganha cheiro, cor e memória. Para Mãe Neide, cada prato carrega uma história. “Quando eu sirvo um bife e digo que, ao vir para a Serra da Barriga, a pessoa não vem só para encher a barriga de alimentação, mas de cultura e história, é porque cada prato que minha ancestralidade me ensinou traz identidade.”
Território sagrado
Mãe Neide Oyá D’Oxum
Arquivo pessoal
A Serra da Barriga, em União dos Palmares, território símbolo do Quilombo dos Palmares, ocupa lugar central na vida espiritual de Mãe Neide. Ela relata que, depois de pisar naquele solo pela primeira vez, sentiu a mediunidade, a coragem e a força se intensificarem.
“Serra da Barriga é vida, é cura, é alimento espiritual, é reencontro”, afirmou emocionada.
O mesmo espírito de continuidade se materializa no Centro de Formação Cultural Inaê, espaço criado por ela para ensinar, acolher e fortalecer a comunidade por meio da cultura e da identidade afro-brasileira.
O que começou com a produção de acarajé e roupas de retalho cresceu. “Quando eu me dei conta, tinha mais de 60 meninos aqui dentro. Aí vieram a dança, a percussão”, contou.
Ao olhar para a própria trajetória, Mãe Neide fala como quem planta. Reconhece que sua caminhada não é individual, mas fruto da força de outras mulheres.
“Primeiro eu peço a bênção das que vieram antes: tia Marcelina, vó Netinha, mãe Celina, minha mãe de santo. Elas não largam nossa mão. Nossa vida é sustentada através da prece, da renúncia, da dedicação e da resistência dessas grandes mulheres.”
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