Bloco do Bobo resiste ao afundamento do solo e mantém tradição em Maceió

Postado em 17 de Fevereiro de 2026 ás 14:32

Me conte sua história: Antônio Severino mantém viva a manifestação cultural dos bobos
Um dos blocos mais tradicionais da cultura carnavalesca de Maceió surgiu de uma simples brincadeira de criança e atravessa gerações no bairro do Bom Parto. Essa é a história do Bloco do Bobo, um folguedo típico alagoano que se tornou símbolo de resistência cultural na capital.
A origem do bloco remonta à infância de Antônio Severino, fundador do movimento e referência na promoção cultural da comunidade. Inspirado em personagens caricatos e “monstros fofões”, ele e outros meninos começaram a criar fantasias improvisadas com saco de nylon, corda amarrada na cintura e latas que serviam de instrumento.
“Baseado naqueles monstrinhos fofões, a gente começou a trabalhar o bobinho com uma roupinha de saco de nylon, a corda amarrada na cintura, batendo umas latas. Começamos quando crianças. Depois, já adultos, fomos pegando o pique, gostando disso e moldando esse carnaval até chegar aqui”, relembrou Antônio em entrevista à TV Asa Branca Alagoas. (Assista acima)
Construção coletiva
Bloco dos Bobos, em Maceió.
João Erisson
Mais do que um desfile, o Bloco do Bobo funciona como espaço de formação e fortalecimento comunitário. A própria população participa da confecção das fantasias e da organização das alas, mantendo viva a tradição no bairro.
Segundo Antônio Severino, o processo é coletivo e permanente. “É produção da própria comunidade. Eles se juntam para delegar funções e assim se movimenta o nosso carnaval. Eu dou oficinas todas as segundas e quintas-feiras”, afirmou.
Na avenida, essa união se transforma em cores e ritmos. O bloco reúne diversas alas que dão identidade ao cortejo, como o Batuque das Poderosinhas, o Boi Caprichoso, a Ala dos Narcóticos Anônimos e o Bloco da Inclusão.
Resistência após afundamento do solo
Bairro do Bom Parto, em Maceió, resiste com Bloco do Bobo.
João Erisson
O caminho, no entanto, não foi apenas de festa. O Bloco do Bobo é hoje um dos poucos grupos que resistem após os danos ambientais e afundamento do solo causados pelo trabalho de extração de sal-gema em bairros de Maceió. A desocupação de bairros como Mutange, Bebedouro e Pinheiro afetou diretamente a dinâmica cultural da área.
“Os bobos que a gente tinha vinham do Alto das Colinas, desciam a Chã de Bebedouro, passavam no Mutange. Quando acabou com esses bairros, acabou com o movimento e com a população que fazia parte do carnaval com a gente”, relatou Antônio.
Enquanto muitos grupos desapareceram com o esvaziamento das comunidades, o bloco permaneceu ativo no Bom Parto, mantendo ensaios, oficinas e desfiles mesmo diante das dificuldades.
Colorir a dor
Bloco do Bobo
Jadir Pereira
Apesar dos impactos que a comunidade ainda enfrenta, cada detalhe do figurino carrega um significado. A escolha das cores e do desenho do personagem é pensada como forma de transformar dor em expressão cultural.
“Além da pandemia, que deixou todo mundo triste, ainda vem a violência. Para trabalhar esse sentimento, esse bobo não é um bobo bizarro, ele é um bobo alegre. Tem uma cara sorridente, é colorido, mexe com os sentimentos da comunidade”, explicou.
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