Do barro ao mundo: artesãos de Capela transformam tradição em sustento e identidade cultural em AL

Postado em 09 de Abril de 2026 ás 15:21

Artesanato de Capela transforma histórias e conquista destaque em todo mundo afora
Em Capela, na Zona da Mata de Alagoas, o barro retirado do quintal de casa tem transformado a vida de artesãos e levado a cultura popular do município para diferentes partes do Brasil e do mundo. O trabalho, que atravessa gerações, se tornou fonte de renda, reconhecimento e também de preservação cultural.
Localizada a cerca de 60 quilômetros de Maceió, a cidade mantém características de um interior marcado pela tradição. Logo na entrada, duas esculturas gigantes chamam a atenção: um bumba-meu-boi e uma jaqueira, símbolos que representam a força do artesanato local e homenageiam artistas da região.
É nesse cenário que o barro ganha forma pelas mãos de quem aprendeu a transformar matéria-prima simples em arte reconhecida internacionalmente.
Mestre João e a arte que formou gerações
João das Alagoas
Wanderson Oliveira/Assessoria
O artesão João das Alagoas, reconhecido como Patrimônio Vivo do estado, trabalha com barro há 58 anos. Autodidata, ele começou a modelar peças sem imaginar que se tornaria referência. Segundo o artesão, o contato com a matéria-prima aconteceu de forma natural.
"Eu acredito que foi o barro que me escolheu. Sempre gostei de arte, de desenho, escultura em madeira. O barro veio porque é mais acessível, mais espontâneo e livre. Às vezes é uma surpresa, porque eu nem sonhava em ser artista", disse em entrevista à TV Asa Branca Alagoas.
Ao longo da trajetória, João recebeu prêmios, homenagens e chegou a ter peças expostas em museus fora do país. Entre os reconhecimentos, ele destaca uma menção honrosa na Argentina. Mas, para ele, a maior conquista está no ateliê-escola, onde repassa o conhecimento para novos artesãos.
"Eu me sinto um rei fazendo isso. Vejo que muitas pessoas não passam o saber para os outros. Para mim, a maior felicidade é saber que meus filhos e alunos vão ter orgulho desse trabalho", afirmou.
Do corte de cana para o mundo
Sil da Capela
Reprodução/ Tv Asa Branca Alagoas
Uma das pessoas que tiveram a vida transformada pelo aprendizado com o mestre foi a artesã Sil da Capela. Ela conheceu João há 26 anos e nunca havia tido contato com o barro.
"Nunca tinha visto um boneco de barro. Quando conheci o mestre João, me encantei. Comecei a querer fazer, sem saber se ia dar certo", contou.
Deu certo. As esculturas de jaqueiras, inspiradas na infância da artista, se tornaram marca registrada e chegaram a outros países. Antes artesã, Sil trabalhava como cortadora de cana.
"O profissional do corte de cana é muito escondido, pouco ganha e não tem reconhecimento. A arte me trouxe para um mundo que eu jamais chegaria sendo cortadora de cana. Depois dos meus filhos, ser artesã é tudo", disse.
Arte que transforma famílias
O impacto do artesanato também chegou à família de Sil. A irmã dela, Adriana Maria Siqueira, que trabalhava como empregada doméstica, aprendeu a modelar barro e passou a viver da produção artística.
"Eu me sinto muito realizada porque o artesanato hoje é tudo na minha vida. É daqui que tiro o sustento da minha casa. Às vezes fico sem acreditar que fui eu que fiz. Quando os clientes chegam e perguntam ‘você é Adriana da Jaca?’, fico muito feliz", relatou.
Artesanato alagoano na Paris Design Week
Divulgação
Outra artesã que teve a vida transformada foi Nena, agora reconhecida como Mestra da Cultura Alagoana, antes vendia galinhas para complementar a renda da família durante a entressafra da cana-de-açúcar. Após aprender com o mestre João, ela passou a produzir esculturas, especialmente girassóis.
"Eu tinha necessidade de sustentar meus filhos e não era suficiente. Hoje posso dizer que consegui criar meus filhos através do meu trabalho. Valeu a pena", afirmou, emocionada.
Tradição que continua
Victor se especializou em personagens do tradicional folguedo alagoano.
Reprodução/ Tv Asa Branca Alagoas
Entre os artesãos formados no ateliê também está Victor, que se especializou em personagens do guerreiro, tradicional folguedo alagoano. Ele começou ainda criança e hoje vê o trabalho como forma de preservar a cultura.
"É transformar tradição em identidade. Venho de uma família ligada à arte e aprender com o mestre João foi um marco", disse.
Em Capela, o barro segue sendo mais do que matéria-prima. É instrumento de transformação social, preservação cultural e fonte de renda para artesãos que encontraram na arte uma nova trajetória.
O que começa no quintal de casa ganha forma nas mãos desses artistas e atravessa fronteiras, levando consigo a identidade cultural da Zona da Mata alagoana.
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