Nascimento de filhotes de onça em cativeiro coloca Alagoas no mapa da conservação da espécie

Postado em 31 de Agosto de 2025 ás 05:00

Nascimento de filhotes de onça em cativeiro coloca AL no mapa da conservação da espécie
Em apenas dois anos, um projeto de reprodução de onças em um ecopark de Alagoas alcançou um marco que enche de esperança pesquisadores e ambientalistas: o nascimento de seis filhotes de onça em cativeiro.
Localizado em Maragogi, no Litoral Norte do estado, o Ecopark Sol&Mar abriga animais vindos de diferentes biomas brasileiros, todos resgatados ou recebidos de instituições parceiras que atuam em rede para conservar a espécie. O local é aberto à visitação.
A conquista não é pequena. A onça-pintada, maior felino das Américas, perdeu quase metade de sua população em ecossistemas como a Mata Atlântica, o Cerrado e a Caatinga. O desaparecimento ocorre por causa do avanço humano sobre o habitat natural, da caça ilegal e da redução significativa das presas de que dependem para sobreviver.
“São animais ameaçados de extinção e com uma população reprodutiva pequena sob cuidados humanos”, explica Gabriel Gouveia, proprietário do ecopark.
Os seis filhotes nasceram de três ninhadas diferentes, sendo dois em cada ninhada, da mesma fêmea: a Kira, uma onça de três patas que chegou ao ecopark há alguns anos. Ela perdeu uma das patas em uma briga com outra onça antes de ser levada para lá, onde passou por um processo de reabilitação e não pode ser devolvida à natureza.
Kira é uma onça de três patas que chegou ao ecopark há alguns anos
Gabriel Gouveia
O primeiro nascimento registrado foi em novembro de 2023 e o mais recente, em outubro de 2024.
Para garantir a reprodução em cativeiro, o projeto segue protocolos rigorosos. O manejo considera o comportamento natural das onças, que são solitárias: machos e fêmeas só ficam juntos no momento exato do cio da fêmea, aumentando as chances de acasalamento.
A genética também é cuidadosamente estudada, evitando cruzamentos entre animais de biomas distintos. A rotina inclui recintos planejados para estimular comportamentos naturais, alimentação balanceada e assistência veterinária constante.
"No caso da Kira contamos com um parceiro de Minas Gerais que nos enviou um macho de mesma origem que ela. Se tratando de onças é sempre desafiador porque o processo de pareamento e acasalamento é sempre incerto", explicou Felipe Coutinho, médico veterinário responsável pelos animais.
Ele conta que não foi fácil. "Foram algumas tentativas até termos o primeiro sucesso reprodutivo. Durante o processo evidentemente pensamos que poderia não dar certo, a busca pelo resultado nos leva a uma ansiedade, porém com muita paciência e persistência repetimos até funcionar".
O resultado é mais do que simbólico. Além de manter viva a linhagem dos pais, os filhotes podem, futuramente, ser destinados a outras instituições de conservação em todo o país. E ganha ainda mais relevância diante da realidade da espécie, que já perdeu metade de sua população em biomas como cerrado, mata atlântica e caatinga.
O local mantem uma equipe multidisciplinar que fica responsável pelos animais. São veterinários, biólogos e zootecnistas. O acompanhamento é feito de perto, para que eles possam intervir em cada ocasião oportuna, assim a saúde e desenvolvimento dos filhotes é garantida.
“A mãe não os amamentou, então todos foram criados de forma artificial. Por isso, no início, criam forte vínculo com quem os alimenta. Com o tempo, essa ligação diminui, e, quando atingem a maturidade, eles são preparados para formar novos casais e dar sequência ao ciclo de reprodução assistida”, disse Coutinho.
Nascimento de seis filhotes de onça em cativeiro, Alagoas, Maragogi
Arquivo pessoal/ Gabriel Gouveia
Por enquanto, não há previsão de soltura na natureza. Segundo o ecopark, isso exige etapas complexas, como adaptação comportamental, análises genéticas e avaliação de áreas seguras para reintrodução.
"Dentro do próprio projeto de conservação, a gente conta com instituições que conseguem fazer a soltura, inclusive isso já aconteceu com outros animais nossos. A ideia é que através dessas instituições a gente consiga fazer a soltura das onças na natureza", explicou Gabriel.
Animais fazem parte de programas de conservação
O ecopark em Maragogi é um dos empreendimentos de fauna que possui licença ambiental em Alagoas. O espaço cumpre alguns requisitos previstos pela legislação, sendo vistoriado pelo Instituto do Meio Ambiente de Alagoas (IMA).
"Essa autorização busca promover o funcionamento de forma legalizada, garantindo os parâmetros para atuar no cuidado e promoção do bem-estar dos animais. Para funcionar, por exemplo, devem possuir veterinário, biólogo e comprovar que é um ambiente apto para receber esses animais”, esclarece o Gerente de Fauna e Flora, Henrique Lessa.
O projeto não se limita às onças. O local também participa de programas de conservação de outras espécies ameaçadas. Segundo Gabriel, parte expressiva da receita do parque é revertida para esses projetos, que sobrevivem quase sempre em meio à escassez de recursos.
O próximo passo é ousado: ampliar o número de casais reprodutores e consolidar o ecopark como referência nacional em reprodução de grandes felinos. Mais do que números, a iniciativa quer inspirar. “Queremos conscientizar cada vez mais pessoas da importância desses trabalhos”, afirma Gabriel.
Entre recintos, câmeras de monitoramento e olhares atentos, há espaço para emoção. “Sempre amei animais, mas acompanhar de perto o nascimento e os primeiros passos desses filhotes foi algo marcante, pessoal e profissionalmente. É um privilégio colaborar de forma prática com a reprodução da onça-pintada no Brasil”, comemora o médico veterinário.
Veja fotos de filhotes de onça nascidos em cativeiro em Alagoas
Ritmo do desmatamento desacelera na Mata Atlântica
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